Beijei castamente o seu rosto e os seus cabelos enquanto os seus olhos lacrimejantes vidravam nos meus, absortos. Ela piscava-os muito pouco enquanto seguia os meus movimentos com o canto dos olhos. As suas sobrancelhas arqueavam-se. Acho que ela estava com medo. Ela fechou os olhos e chorava baixinho enquanto eu lhe cantava alguma cantiga inventada que enchia o quarto e abafava os seus lamentos. Eu estava feliz. Ela não iria sofrer mais. Embalei-a pequena no meu colo, enquanto ela apenas contorcia-se e balbuciava algum lamento abafado entre os meus cabelos. Eu disse que entendia, porque queria entender, e chorava, porque a beleza dela me tomava de tal forma que eu perdia o controle sobre o que eu julgava ser verdade ou mentira, ou mesmo as duas ou a minha imaginação fértil. Em meio às lágrimas, ela lançou-me um meio-sorriso tímido, um rabisco de emoção lúcida. Durou um segundo, mas estava lá, o seu olhar de trovão fixo em mim e um sorriso obliquo dependurado em uma moldura de olhos chuvosos. Claro, o tempo parou. Eu parei. E o mundo pareceu girar devagar, como nos filmes. Eu tive mais um segundo para pensar (ou organiza-los de forma racional) e no próximo eu estava a responder ao sorriso dela com o meu sorriso mais espontaneo-bobo que eu poderia expressar. Aquele momento escorreria pelas minhas mãos no próximo pensamento, mas eu não o perderia. A partida dela da minha vida não poderia ficar mais na minha memória do que aquele segundo.
Apenas um segundo.
O suficiente para que o meu mundo parasse de girar.
foste mauzinho